Olhos no longo prazo

Sem a redução radical do custo Brasil, estamos condenados a um crescimento medíocre

Gestão de Recursos/Edição 112 / 1 de dezembro de 2012
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Alexandre Póvoa*/ Ilustração: Julia Padula

Queda na cotação das ações: Petrobras (defasagem do preço dos combustíveis), elétricas (corte de 28% nas tarifas); bancos e varejo (uso da Caixa e do BB para pressionar os spreads); e “flexibilização” excessiva do tripé da política macroeconômica. Dentre outras, não são poucas as razões para se acreditar, à primeira vista, que as ações do governo Dilma têm sido negativas para o mercado de capitais. Porém, será que essa aparente obviedade resiste a uma análise de longo prazo?

Inicialmente, cabe ressaltar que só existe desenvolvimento do mercado de capitais se a economia estiver saudável. Entre 2003 e 2012, o crescimento médio do PIB brasileiro foi de 3,8% ao ano (próximo ao potencial), puxado, basicamente, por dois fatores: consumo alavancado por aumento de emprego (renda) e crédito — que saltou de 23% para 51% do PIB — e pelas exportações, impulsionadas pelo desempenho global, em particular pela demanda da China por commodities.

Esse modelo consumo/setor externo vem dando sinais de esgotamento. Do lado do consumo, há uma elevação do endividamento das famílias (comprometimento da renda — já na casa dos 25% — para pagamento de juros) e do nível de inadimplência (na pessoa física salto de 5% para 8%). Mesmo com a economia em pleno emprego, o ritmo de vendas ao varejo caiu pela metade. Do lado das exportações, a crise mundial deprimiu os preços (em 12 meses, as commodities caíram em média 15%).

Ou seja, apesar do crescimento cíclico previsto para 2013 (3,5% ao ano) devido a queda de juros, redução de estoques (contração na produção industrial) e câmbio mais desvalorizado, fica a angustiante pergunta: com qual modelo o Brasil cresce a partir de 2014, dada a limitação de consumo e do setor externo? Mesmo que por linhas tortas, o governo Dilma parece ter entendido que, se o custo Brasil não for radicalmente reduzido, estamos condenados a um crescimento medíocre.

Sem uma contribuição forte do consumo (mesmo com o relaxamento monetário) e das exportações, dependemos de maior produtividade e investimentos e maior impulso fiscal: as iniciativas do governo, portanto, não foram um mero acaso: forte redução de custos de energia, desoneração da folha de pagamentos, programa de R$ 133 bilhões de investimentos em logística nos próximos 25 anos (R$ 80 bilhões até 2017), incentivos para debêntures de infraestrutura, além da expansão de financiamentos públicos. No lado fiscal, nossa situação privilegiada comparativamente ao mundo aponta para queda consistente da relação dívida/PIB. Nossa preferência de política recai sobre o corte mais agressivo de impostos para desafogar o caixa das empresas, com o governo reduzindo suas despesas correntes.

Para o mercado de capitais, fica o seguinte recado dado pelo governo: o Brasil precisa refundar, urgentemente, seu modelo de crescimento se quiser manter o interesse do investidor. O incentivo aos investimentos e a redução do aperto fiscal caminham na direção correta (apesar das ações e intensidade discutíveis). Se efetivos, eles irão beneficiar o mercado de capitais no médio e longo prazos via crescimento, mesmo que isso seja pouco claro hoje.


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