Em busca de proteção

Crise americana leva investidores no Brasil e no mundo a procurarem portos mais seguros para suas aplicações



 

A crise americana mostrou sua face mais severa. Deflagrada há13 meses, por conta dos créditos hipotecários de alto risco, ela chegou ao cume em setembro, mediante os abalos sofridos por instituições do calibre do Lehman Brothers e da Merrill Lynch. O governo norte-americano assumiu a gestão das duas maiores companhias de hipotecas do país, Fannie Mae e Freddie Mac, e emprestou mais alguns bilhões de dólares para estatizar a seguradora AIG. No dia 3 de outubro, o Congresso dos Estados Unidos aprovou um pacote de ajuda de R$ 850 bilhões, dos quais R$ 700 bilhões serão destinados a socorrer os bancos. É a maior intervenção estatal no país desde a crise de 1929. E tudo isso na economia que, nos últimos anos, mais pregou o livre mercado.

Os investidores saíram em busca de um porto seguro. No Brasil, o principal movimento foi a fuga de estrangeiros que, só no mercado secundário de ações, representam cerca de um terço do volume negociado. Os aplicadores locais fizeram o mesmo. Foram atrás de aplicações mais conservadoras. Deixaram os fundos multimercados e de ações e partiram para opções tradicionais, como o velho Certificado de Depósito Bancário (CDB).

Somente nos multimercados, a fuga de recursos soma R$ 36 bilhões no acumulado do ano, segundo dados da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid). Em setembro, até o dia 23, a captação estava negativa em quase R$ 6 bilhões. O contraste com o ano passado é grande. Em 2007, os multimercados registraram a maior captação líquida da indústria, com o ingresso de R$ 26,8 bilhões. Muitos desses investidores viram na modalidade a chance de colocar um pé no mercado de ações, deixando o outro na segurança da renda fixa, mas não contavam que garantir rentabilidade semelhante à do CDI fosse tão complicado. Nos fundos de ações, o cenário também é pouco animador. Os resgates somam R$ 9,8 bilhões em 2008 e R$ 615 milhões no mês passado. No total da indústria de fundos, setembro completou uma seqüência de seis meses consecutivos de resgates superiores a aplicações.

O cenário em nada se parece com o passado recente. Depois da queda de 17% do Ibovespa em 2002, o mercado de ações registrou cinco anos consecutivos de alta. Os bons resultados da Bovespa e a estabilidade econômica atraíram novos investidores — e são estes mesmos investidores que passam hoje por sua primeira crise. O trauma não deve ser comparado ao baque do início da década de 70, quando o arcabouço legal e a qualidade das empresas que chegavam ao mercado eram deficientes. Mas a decepção dos investidores é evidente. “Estamos em um momento de equalização do perfil”, comenta Thiago de Castro, da Tag Investimentos. Segundo ele, muitos investidores, traumatizados, certamente ficarão longe do mercado de capitais por um bom tempo. “Mas no próximo ciclo de alta ganharemos novos aplicadores, e os atuais estarão preparados para os períodos de baixa”, completa.

O desânimo pode ter se refletido na ExpoMoney, maior evento voltado a investidores do País. Este ano, a edição paulista da feira começou no dia 17 de setembro, data em que o Ibovespa caiu 6,74% e voltou a operar na casa dos 45 mil pontos. Os 20 mil visitantes que estiveram no evento em 2007 baixaram para apenas 16 mil. Mas, segundo Raymundo Magliano Neto, diretor da ExpoMoney, a redução não é resultado do mau momento do mercado. “No ano passado, o evento tinha um dia a mais e o local era mais acessível”, diz. Em sua visão, os investidores que entraram na bolsa nos últimos anos estão muito mais cientes dos riscos e da importância de uma visão de longo prazo quando se trata de mercado de ações.

Para o diretor da área de Relações com Investidores da Mercatto, José Ferreira Neto, é importante que a indústria de fundos invista cada vez mais no conceito de suitability — processo de identificação dos riscos que cada aplicador é capaz de suportar para escolha de um produto compatível. “O investidor precisa ser alertado também para a composição da carteira de renda fixa, que pode ser menos volátil, mas não de menor risco, dependendo dos papéis que carrega.”

Para tranqüilizar os clientes, os gestores de recursos apostam na didática. A Geração Futuro, com 65 mil investidores e R$ 6 bilhões em patrimônio administrado, ampliará sua equipe atual, formada por 80 consultores, para atender à demanda crescente dos cotistas temerosos com o destino dos recursos que aplicaram em ações. Os 40 profissionais que atendem os clientes de São Paulo ganharão, ainda este ano, o reforço de 12 colegas. A meta é, em 2009, dobrar o time.

Palestras e encontros com investidores também fazem parte, de maneira cada vez mais intensa, da rotina do Banco Fator. O segmento de private banking, apesar de ser destinado aos clientes com potencial de investimento superior a R$ 1 milhão, também abriga milionários novatos, com pouca experiência em investimentos de risco. Para esses clientes, o banco promove eventos que ajudam a entender o que se passa na economia norte-americana. “Sempre que há turbulência tentamos nos aproximar ainda mais dos clientes”, diz Walter Ferreira, gerente do private banking do Fator. O segmento conta hoje com dez assessores, e o plano é ampliar a equipe em 50%.

No longo prazo, a melhor tática é adequar de forma rigorosa o perfil de risco dos aplicadores aos produtos que adquirem. De forma geral, o investidor sempre acha que pode arriscar mais do que sua tolerância permite, principalmente quando reina o otimismo. “Há três anos, promovemos uma reestruturação interna e criamos a figura do gerente de investimento, cuja função é direcionar o cotista para o produto certo”, conta Ronaldo Patah, diretor de renda variável e multimercados do Unibanco Asset Management. De fato, em outros tempos, o estrago em toda a indústria de fundos teria sido, provavelmente, bem maior.


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