Destruição criativa

Crise atual mudará vertentes do sistema financeiro e econômico, tornando-o mais funcional



As crises capitalistas, de uma forma geral, sempre resultaram de processos cíclicos de crescimento que, de forma patológica, convertem-se, ao final, na formação de bolhas especulativas. Estas, por sua vez, geram processos agudos de queda de atividade econômica e colapsos financeiros. Não cabe aqui relatar as inúmeras crises capitalistas dos últimos séculos, especialmente desde o último quarto do século passado. Contudo, observa-se que a destruição de padrões econômicos politicamente construídos gera novas oportunidades, as quais, inexoravelmente, vêm acompanhadas de seus correspondentes riscos.

Basta lembrar, no caso do Brasil, que o processo de industrialização se fortaleceu a partir de um novo padrão de acumulação de capital, depois da trágica crise que sucedeu o ano de 1929. Nas regiões centrais do capitalismo, notadamente Estados Unidos e Europa Ocidental, foi a implementação de novas políticas keynesianas que propiciou um longo período (1945-1975) de prosperidade e modernização social e política. São dois exemplos de funcionamento do binômio “destruição – nova construção”.

Há sólidas razões para acreditarmos que a crise iniciada de forma mais contundente em setembro de 2008 é um desses momentos desafiadores que coloca em perspectiva novas oportunidades e novos riscos.
Vale dizer que esses processos são dolorosos do ponto de vista social e apresentam consequências políticas muitas vezes indesejáveis: na Europa, a crise iniciada no final dos anos 1920 enraizou o nazismo e o fascismo. Paradoxalmente, nos Estados Unidos, o partido comunista (sim, ele existia!) nunca superou a marca de 1% dos votos durante o período da grande depressão. No Brasil, a crise de 1929 abriu espaço para a Revolução de 1930 e, posteriormente, para a ditadura Vargas. Em meados dos anos 1980, durante a década perdida, a redemocratização do País surgiu marcada pelo elevado endividamento externo e a hiperinflação.

Feitas essas observações, podemos supor que o processo atual implicará alterações, possivelmente substanciais, na política e no sistema econômico. Não é possível dizer concretamente quais serão essas mudanças. É cedo. Todavia, é bastante plausível imaginarmos que a atual crise transformará — digamos, conceitualmente — algumas vertentes do sistema financeiro e econômico.

É provável que uma dessas modificações seja a adoção de medidas no campo político que inibam a expansão sem mensura do atual “financismo”. Explico: a crise hoje está diretamente relacionada à ausência de funcionalidade do sistema financeiro e do mercado de capitais nos países desenvolvidos. A regulação e, sobretudo, a fiscalização punitiva dos Estados ficaram marginalizadas, fragilizadas e nanicas diante do potencial destrutivo dos hedge funds e das operações de tesouraria. A rapidez das informações e a sofisticação dos instrumentos financeiros se tornaram uma espécie de arma de destruição em massa de economias, empresas, países, e do próprio Estado, que se torna incapaz de impor sua soberania política. Esse extraordinário potencial de destruição terá de se tornar a base para a criação de um sistema mais eficiente, com maior supervisão e, quiçá, adequada autorregulação. Eis a mudança relevante e conceitual que me atrevo a prever para os próximos anos.

Mas o Brasil tem aí uma chance de se aproveitar da sua boa situação e se antecipar. Quem sabe, tornando o Estado mais competente para atender às reais necessidades sociais e econômicas por meio de uma maior rigidez fiscal, o que permitiria reduzir a taxa de juros campeã mundial em termos de estatura.


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