Sonho para outras Copas

A meta de 5 milhões de investidores na Bolsa em 2014 já era. Infelizmente, as barreiras para os brasileiros investirem em ações vão muito além da competição com os juros altos



A BM&FBovespa pretende que 5 milhões de brasileiros invistam diretamente nos seus segmentos de listagem em 2014, ano da Copa do Mundo no Brasil. Assim como os estádios em construção para o evento, a meta exige esforços extraordinários e recursos adicionais de peso. Para a tarefa hercúlea, a Bolsa investiu em publicidade, criou o slogan “Quer ser sócio?”, e contratou o Pelé. Mas o seu presidente, Edemir Pinto, já admite a necessidade de revisar a meta. Agora, 2014 parece perto demais.

Entre 2002 e 2010, o total de investidores individuais pulou de 85 mil para 603 mil, um número sete vezes e meia maior e que impressiona, mas nesse ritmo a Bovespa só atingiria cinco milhões de aplicadores pessoas físicas em 2018. Ano da Copa, mas na Rússia. Patrícia Quadros, gerente dos programas de popularização da BM&FBovespa, reafirma a meta, embora evite citar uma data específica para cumpri-la. “Não se trata de uma previsão exata, mas, sim, de uma provocação para evidenciar que o nosso mercado de capitais possui tudo para se expandir. O salto nos últimos oito anos indica isso”, diz.

Mesmo com a flexibilização, a meta exigirá esforços que vão além da Bolsa e dos corretores. Aquiles Faria, professor do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), arrisca um prognóstico de dois milhões de investidores em 2016. “Em 2021, esse número de pessoas físicas cadastradas chegaria a seis milhões, ou 3% da população”, estima.
Para tanto, seria preciso crescimento do PIB por volta de 4,5% em 12 meses e uma taxa de juros próxima a 10% ao ano, segundo as projeções do professor. A concorrência com os títulos do governo é crucial na definição desse cenário. “O brasileiro ganha mensalmente, na renda fixa, aproximadamente o mesmo 1% que o norte-americano recebe em seu país ao ano, usando instrumento similar”, observa Faria. No Brasil, menos de 0,5% da população está na Bolsa. Nos Estados Unidos, essa proporção passa dos 50%. Se formos comparar o volume financeiro movimentado no mercado de ações por investidores individuais no Brasil com a Coreia do Sul, por exemplo, há um abismo. Por aqui, em 2010, eles foram responsáveis por 26,4% das negociações. Na Coreia, por 84,7%.

O desafio torna-se ainda maior diante da diversificação e da agressividade do mercado de renda fixa. Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) pagam até 15% brutos ao ano. “Isso sem o recolhimento de imposto de renda (aplicável a pessoas físicas, sob algumas condições) e sem um risco claramente perceptível, como acontece com as ações”, explica Manoel Horácio da Silva, presidente do Banco Fator. Para ele, na ausência de um cenário de queda do juro real, a meta de popularização das bolsas passa de ousada a impossível.

O desinteresse não está só do lado do comprador. As empresas também não se empenham em atrair pessoas físicas

Os passos de caranguejo do pregão no último ano e meio, lembra Silva, também contribui para atrasar os planos. Aníbal Jesus dos Santos, diretor-geral da Ágora Senior e da Bradesco Corretora, ressalta que nem bem a crise do subprime, de 2008, se dissipou, o mundo ingressou em outra, tão ou mais complicada do que a primeira. “A crise do déficit fiscal e do endividamento de países da Europa certamente terá longa duração, podendo gerar subcrises importantes”, alerta Santos.

OBSERVANDO DE LONGE — Há também razões históricas e culturais que contribuem para os brasileiros serem espectadores passivos do mercado de ações. Uma delas é a falta de educação sobre o tema. Disciplinas como matemática financeira ou noções de finanças pessoais não estão nos currículos escolares. Soma-se a isso a falta de planejamento para o futuro. “Comprar agora dá mais prazer do que guardar para a velhice”, comenta o professor de finanças do Insper, Ricardo Rocha.

No Brasil, também falta a matéria-prima fundamental para o investimento em ações: poupança. E o fato de o governo assumir para si a tarefa de prover a aposentadoria dos trabalhadores é mais um desestímulo ao acúmulo desses recursos. Além de reter parte da renda que poderia ser destinada à poupança individual em encargos como contribuição previdenciária e Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), esse sistema induz o pensamento de que os rendimentos para a posteridade estão garantidos. “Se você sabe que não há ninguém se preocupando com seu futuro, passa a se planejar”, conclui o professor de finanças Samy Dana, da Escola de Economia da FGV-SP. Dentre os Brics, o Brasil é o que tem a menor taxa de poupança bruta. De acordo com dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), poupamos 17% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2010, contra 54% da China, 34,7% da Índia, e 25% da Rússia. Na comparação com os Estados Unidos, entretanto, levamos vantagem: os americanos poupam 11,5%. Já os invejados coreanos, 31,5%.

O desinteresse pela renda variável e pelo risco não está apenas no lado do comprador. O vendedor também não faz muito para se aproximar desse público, a começar pelo esforço de venda nas ofertas públicas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês). O varejo nunca é o favorito das empresas que abrem o capital — costuma ficar com apenas 10% da oferta. Normalmente, a sede é pelos investidores institucionais e estrangeiros, com mais recursos e dispostos a ficar mais tempo com os papéis. Há o receio dos flippers — investidores de curtíssimo prazo que buscam a valorização do primeiro dia de listagem. “Para a maioria das empresas, o investidor pessoa física é um chato. Comunicar-se com ele não está dentre as prioridades”, declara Rocha, do Insper.

Recentemente, a varejista Magazine Luiza diferenciou-se ao criar uma campanha de comunicação para divulgar seu IPO. Quase 25% das ações ofertadas foram colocadas à disposição do varejo. “A vontade de se comunicar e a popularidade da marca deram certo como estratégia. Quanto mais próximo do consumidor, mais fácil transformá-lo em sócio”, analisa Vieri Bracco, diretor da HSBC Corretora. A iniciativa atraiu 35 mil investidores pessoas físicas, que compraram quase 12 milhões de ações. Das sete companhias que abriram o capital este ano, a Magazine Luiza foi líder absoluta em termos de angariar pessoas físicas.

Para completar o cenário, os intermediários ajudam pouco. Os gerentes de banco, principais interlocutores da classe média para assuntos financeiros, não costumam recomendar os investimentos em ações. “Para o banco, é interessante que o dinheiro fique na poupança ou no CDB”, pondera Rocha. Segundo Bracco, existe um esforço do grupo HSBC para instruir os profissionais a colocarem a corretora da instituição no leque de opções oferecido ao investidor. Em 2010, o número de clientes da área de corretagem cresceu 15%. São iniciativas como essa que ajudam a BM&FBovespa a vislumbrar os 5 milhões de investidores e batalhar por eles. Mas com o prazo de 2014, infelizmente, já não dá mais para sonhar.


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