Atrás do investidor fiel

Escaldadas pela crise, companhias apostam em diversificar a base de acionistas e ampliar a parcela de pessoas físicas



 

A crise financeira deu alguns cutucões nas companhias brasileiras. Um deles foi lembrar que não se devem depositar todos os ovos na mesma cesta. O ensinamento, muito usado por especialistas em finanças pessoais para mostrar a aplicadores novatos os riscos da concentração de recursos, mostra-se também importante quando o assunto é a base de acionistas de uma companhia aberta. As empresas que ingressaram na bolsa nos últimos anos começaram, em geral, com mais de 70% de suas ações nas mãos de investidores estrangeiros — e entenda-se por estrangeiros, em sua maioria, investidores institucionais, como os gestores de hedge funds. O perfil pouco variado mostrou sua face perversa durante os meses de abalo financeiro: fuga em massa dos investimentos e queda significativa das cotações. Foi aí que entrou em cena o investidor local. Gestores de recursos brasileiros aproveitaram os preços baixos para comprar as ações que não puderam adquirir nas ofertas iniciais (IPOs), devido aos preços elevados ou ao pouco interesse dos emissores em vender para o público doméstico. Os aplicadores individuais também surpreenderam. Mantiveram-se firmes em suas posições, a despeito da queda generalizada dos papéis.

Os números comprovam o sangue frio desses investidores. Em setembro de 2008, quando o banco Lehman Brothers foi à bancarrota e deflagrou o período mais crítico da crise, os aplicadores individuais e os clubes de investimento representavam 27,5% do movimento de compras e vendas da BM&FBovespa. No mesmo momento, a participação dos estrangeiros era de 36,8%. Em novembro, a relação se inverteu. Os aplicadores individuais viraram maioria e somaram 34%, enquanto os estrangeiros responderam por 33,5%. Ao longo do quarto trimestre de 2008, a Bovespa registrou, em média, 542,4 mil investidores pessoa física, número 50% superior ao de igual período de 2007.

Moral da história: os investidores internacionais são essenciais, mas não bastam. Essa foi a senha para que as empresas brasileiras dessem menos atenção às viagens internacionais e desbravassem o Brasil. “A crise antecipou a necessidade do gerenciamento da base acionária entre as empresas de médio porte. É inexorável seguir por este caminho”, diz Geraldo Soares, presidente do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (Ibri).

As rotas que antes partiam de centros financeiros tradicionais como Nova York e Londres e seguiam para mercados alternativos, como Dubai, Hong Kong e Cingapura, agora partem de São Paulo e do Rio de Janeiro rumo ao interior paulista, cidades mineiras e capitais nordestinas. A SulAmérica Seguros é um exemplo dessa mudança de foco. No ano passado, ainda investia na diversificação da base de acionistas estrangeiros. Foram cinco non-deal roadshows, com passagens pelas praças tradicionais e por mercados menos usuais, como Sidney, na Austrália. No fim do ano, ficou claro o receio dos investidores diante de posições em mercados emergentes, e a saída foi intensificar a aproximação do público interno. Este ano, foram realizados encontros em Recife, Minas Gerais e Distrito Federal. A companhia programa também visitas a Fortaleza, Salvador, Porto Alegre, Uberlândia (MG) e Ribeirão Preto (SP), todas para 2009.

O trabalho já começou a surtir efeito. No IPO, cerca de 90% do free float estava nas mãos de estrangeiros. Hoje, eles são apenas 52%. Em alguns momentos, os aplicadores locais, entre pessoas físicas e institucionais, chegam a compor a maioria. Outra conquista é a menor concentração de ações por investidor. Atualmente, o número de sócios da SulAmérica é 24% maior do que na estreia da companhia em bolsa.

E quem é o sócio ideal para a SulAmérica? “Queremos investidores alinhados com a visão de longo prazo da companhia. Gostamos do acionista que demanda questões relacionadas à governança corporativa”, define Arthur Farme D’Amoed Neto, vice-presidente executivo e de relações com investidores da seguradora. Para atingir a meta, a empresa investe nos analistas, trabalhem eles para corretoras (sell side) ou para investidores (buy side). Atualmente, sete casas de análise de ações (research) acompanham as ações da SulAmérica, e outras três prometem começar a emitir relatórios sobre a companhia ainda este ano.

INTERESSE PELAS SMALL CAPS — Em algumas empresas, a própria crise se encarregou da diversificação da base acionária. Na Marfrig, que estreou com 75% do free float nas mãos de estrangeiros, a base de investidores individuais cresceu 40% neste ano. “A volatilidade deu oportunidade para novos investidores entrarem na companhia”, avalia Ricardo Florence dos Santos, diretor de planejamento e de relações com investidores do grupo.

Situação semelhante aconteceu na ABnote. Antes da crise, em agosto, os estrangeiros eram donos de 70% do free float. Em setembro, o número de acionistas despencou 40%, inclusive com a saída de pessoas físicas. Logo em seguida, com a ação a preço convidativo — cotada a R$ 9, contra R$ 17 no IPO —, o investidor doméstico voltou a apostar na companhia. “Hoje, o número de acionistas pessoa física voltou ao normal, porém com participação mais relevante”, conta Fábio Bueno, coordenador de relações com investidores da ABnote. O fato de o investidor individual chegar à companhia com as próprias pernas não isenta a área de RI de promover esforços especiais. “Concentramos um dos profissionais de nosso departamento no atendimento exclusivo às pessoas físicas”, conta Santos, da Marfrig.

A Associação Nacional dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec) quer fisgar as empresas interessadas em se apresentar pelo País afora. A presidente da entidade, Lucy Souza, estuda oferecer preços mais baixos para companhias dispostas a realizar encontros em conjunto com outras empresas e incluindo passagem por cidades fora do eixo Rio-São Paulo. “Queremos estimular a ida ao interior do País”, diz Lucy. Dentro desse projeto, a Apimec também alterou o formato de seu prêmio anual. Na eleição de 2011, cujo ano-base será 2010, serão consideradas aptas a receber o prêmio apenas as companhias que se apresentarem em todas as seis regionais da associação: Rio, São Paulo, Distrito Federal, Minas Gerais, Regiões Sul e Nordeste.


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