A urgência de um novo modelo econômico

Pandemia escancarou necessidade de as empresas protagonizarem transição rumo à sustentabilidade — dos negócios e do planeta



Ilustração representa queda de investimentos frente ao novo coronavírus

Opinião: O empresariado precisa assumir o protagonismo nessa necessária transformação do capitalismo | Imagem: studiogstock/ Freepik

Cinco décadas depois de o Nobel em Economia Milton Friedman ter dito que o capitalismo é centrado no conceito do lucro acima de tudo, é chegado o momento de rever essa ideia. A pandemia de covid-19 nos fez enxergar algo que já deveria ter sido visto há muito tempo: já não é possível uma empresa se manter sem atentar para o fato que está inserida num vasto ecossistema interdependente, no qual o acionista é apenas uma das peças.

As decisões de negócios sempre envolvem colaboradores, consumidores, fornecedores e os impactos no meio ambiente. Assim, é um contrassenso olhar apenas para o resultado que se gera para o acionista. É preciso contribuir com o todo — por uma questão até existencial, como veremos. O paradigma de produzir e consumir de maneira desenfreada não cabe mais no contexto atual em que o planeta e seus habitantes estão à beira de um colapso.

O empresariado precisa assumir o protagonismo nessa necessária transformação. É hora de investir em salários mais justos, em um mercado com equilíbrio entre homens e mulheres, na mitigação de problemas sérios e estruturais como o racismo. Para isso, é necessário investir em produtos e serviços que causem menos danos ao meio ambiente — da produção até o descarte —, entre outras ações diversas. Não é uma mera questão de marketing e muito menos de filantropia: é uma questão de urgência, sobrevivência e estratégia.


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Consumidores mais exigentes

Atualmente, a parcela de clientes que já começaram a exigir uma postura diferente das organizações é significativa. De acordo com pesquisa da Accenture¹ realizada durante a quarentena com cerca de 3 mil consumidores em 15 países dos cinco continentes, 63% dos entrevistados afirmaram que estão buscando escolhas mais sustentáveis em suas compras e pretendem ampliar esse comportamento de agora em diante.

Nesse cenário, é realmente correto se preocupar somente com o ganho do acionista? Afinal, ele também não está interessado em saber como a companhia na qual decidiu investir é vista por seus clientes, se comporta com os seus outros públicos e atualiza suas políticas de gestão? Esses fatores já estão na mesa na hora da tomada de decisão sobre investimentos e rumos estratégicos. O conceito cunhado por Friedman tem 50 anos. De lá para cá, o mundo mudou — e muito —, assim como as urgências e prioridades sociais e econômicas. Por isso, as relações empresariais precisam ser adaptadas a essa nova realidade.

Ficar de braços cruzados e contribuir para uma economia de degradação e nada colaborativa é prejudicial a todos, sem exceção. Deixar de se preocupar com questões como logística reversa, descarte final dos produtos, impactos sociais e ambientais das operações não deve ser visto como diferencial e, sim, princípio básico, inclusive de humanidade. Se for para uma empresa durar 500 anos, ela precisa estar inserida nesse contexto. Ou não há lucro que resista. E, nesse caso, menos ainda acionista.


*Francine Lemos (brasil@sistemab.org) é diretora-executiva do Sistema B Brasil. Coautoria de João Paulo Ferreira (ouvidoria@natura.net), CEO da Natura


Notas

¹Pesquisa “Covid-19: How consumer behavior will be changed”, Accenture, 2020


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