Brasil é um país viciado em Estado

Governos e sociedade se acostumaram, ao longo do tempo, a dele depender para tudo

Análise/Bolsas e conjuntura / 4 de outubro de 2019
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Ilustração: Rodrigo Auada

A expressão é contundente, mas pode-se dizer que o Brasil é um país viciado. No entanto, sua dependência não é química, mas de natureza comportamental. E o objeto que o seduziu e corrompeu é o que menos se poderia esperar que fizesse isso: o Estado brasileiro, com todas suas instâncias e nuances. A dependência comportamental foi injetada nas veias do País, lentamente, durante décadas, viciando-o em Estado.

Desde o período Vargas, nos anos 1930, o Brasil recebe maciças doses de intervenção estatal em suas atividades políticas e econômicas. O processo agravou-se durante os 20 anos de regime militar e culminou na Constituição de 1988, dita “cidadã”. Ela foi promulgada penas um ano antes da queda do Muro de Berlim, evento que alteraria para sempre o equilíbrio de forças nas democracias modernas, com a implosão do socialismo real e a vitória da economia de mercado.

Apesar disso, continuamos vivendo a ilusão socialista, comandados por uma Carta Magna defasada, descolada do mundo real — e agravada por políticas equivocadas adotadas ao longo dos governos socialdemocratas que a sucederam, especialmente os do Partido dos Trabalhadores.

Nesses mandatos foram expressivamente valorizadas as remunerações de agentes estatais, que hoje estão muito acima dos padrões da iniciativa privada. O resultado é a busca incessante pelos concursos. Os empregos públicos são mais bem remunerados e garantem estabilidade e vitaliciedade. Sem riscos de demissão. Seguindo o exemplo que veio de cima, a população se viciou — em empregos públicos.

Nessa toada também ocorreram tentativas de contenção da inflação com base em controle de preços, o que resultou na balbúrdia econômica que vivemos na atualidade. E a cada oscilação cíclica de algum produto de grande consumo surgem reclamações das categorias atingidas, demandando intervenção estatal. O País se viciou em interferência governamental.

Os cidadãos não poupam para aposentadorias mais compensadoras. Confiam na poupança compulsória feita para o INSS. E, em vista da possibilidade de reforma da previdência, correm para se aposentar de acordo com as regras que lhes sejam mais convenientes. O brasileiro se viciou em aposentadoria pública.

Já há muitos anos fortunas são construídas no Brasil nas franjas do Estado, seu maior agente econômico, em todos os níveis federativos. Entram nessa dinâmica de enriquecimento de poucos obras, fornecimentos, verbas e negociatas de todo tipo, descobertas diariamente pelos órgãos de controle e fiscalização. Até a riqueza brasileira é viciada em atividades públicas.

O processo de desintoxicação desses hábitos nefastos será necessariamente longo e doloroso. É preciso reduzir peso e tamanho do Estado, o que contraria interesses poderosos, acostumados a mamar nas tetas aparentemente inesgotáveis dos governos brasileiros.


Ney Carvalho é historiador e ex-corretor de valores mobiliários


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